A juíza titular da 1ª Vara da Criança e do Adolescente do Rio, Ivone Ferreira Caetano, decidiu que a menina Júlia Lira, de sete anos, poderá desfilar à frente dos ritmistas da escola de samba Unidos do Viradouro como rainha de bateria. No último dia 4, o Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDCA) enviou uma representação ao órgão solicitando a proibição do desfile da criança na agremiação.
Júlia Lira é filha do presidente da Unidos do Viradouro, Marco Lira. A menina foi coroada rainha de bateria. Esse posto já foi ocupado por musas como Luma de Oliveira e Juliana Paes.
Acende-se um tema explosivo, tabu, no carnaval carioca. A imprensa do mundo inteiro está noticiando o fato, sobretudo na Europa (a filosofia desfila lá). No Brasil, mães aflitas por dinheiro e sucesso omitem as idades das filhas ao apresentá-las às agências de modelos. Sexualidade precoce integra os trópicos, é um fenômeno físico. As lolitas passaram de fenômeno psicológico para fenômeno cultural. A sexualidade infantil é considerado o último tabu humano, desde Donatello, Lewis Caroll e Nabokov.
O problema é a associação automática, inevitável até, que se faz entre sexualidade e abuso contra crianças. Utilizar crianças na arte é uma coisa, mas outra é introduzir uma nota de sedução, permitindo que se abra uma porta perigosa. Ainda no século XIX, Freud aprofundou com coragem brutal essa discussão, ao tentar definir a criança como uma criatura plenamente sexual, mas até hoje isso não pegou. Não pegou porque é perigosamente humano, profundamente perturbador e nos recusamos a acreditar nessa dinâmica.




