Com formação católica, não resisto à tentação de comentar o tema. O Vaticano, numa atitude corajosa, ressalte-se, manifestou publicamente seu repúdio aos padres envolvidos com pedofilia e pediu perdão às vítimas. Corajosa porque por diversas vezes varreu a sujeira para debaixo do tapete, preferindo manter a máscara da hostilidade ao debate sobre a sexualidade de seu rebanho - sejam padres, freiras ou colaboradores diretos.
Padres pedófilos sempre existiram, aqui e alhures. Escândalos sexuais, alguns envolvendo até papas, compõem a história suja, não oficial, da Roma decadente da idade das trevas. Mas tem razão João Pereira Coutinho ao escrever que nos dias atuais os escândalos sexuais no meio católico ressoam com mais intensidade do que quando ocorrem em outras instituições seculares, ou ordens religiosas, porém não celibatárias. Só discordo que isso se deva um “movimento” anticatólico na imprensa.
Ocorre, na minha humilde opinião de católico (embora muito longe de ser praticante), que embora seja notória a lentidão do Vaticano para assimilar novas ideias (Galileu só foi completamente absolvido no papado de João Paulo II, por exemplo), no campo da sexualidade simplesmente estagnou e o terreno aos seus pés tornou-se movediço. É um prato feito para a imprensa e um convite ao imaginário. Não é por menos que “Anjos e Demônios”, “Código da Vinci” e outros fizeram de Don Brown um bilionário. Os ícones católicos são a fantasia do momento.
Jesus sem alegria, a suspeita estóica do prazer, o pessimismo sexual, a concepção virginal, a autocastração psíquica, são arranjos feitos ao longo dos séculos nos evangelhos para justificar o celibato, ou seja, a proibição dos padres casarem. Suas raízes repousam nas lendas pagãs só muito recentemente descobertas, graças ao avanço da pesquisa histórica. Isto somado ao advento de Darwin e de Freud, ao papel da mulher na família (que deixa de ser uma empregada do homem) e na sociedade, reclamam uma nova reforma nos dogmas da Igreja. A última foi em 1543, com o Concílio de Trento.
Bento 16, com seu jeitão esquisito, bem que podia surpreender e mostrar que tem coragem de ir além, tornando assim o mundo mais interessante. Mesmo o conceito do pecado precisa ser revisto, pois sua formulação remonta aos tempos de pensadores solteirões que viviam enclausurados e apavorados com as chamas do inferno. É triste admitir – registra Uta Ranke-Heinemann (Eunucos Pelo Reino de Deus) – que nos dias de hoje os principais pecados da humanidade ainda se situem nos quartos de dormir, e não nos campos de batalha.