Em 1966, Jonh Lennon incendiou a mídia com a declaração “os Beatles são maiores do que Jesus Cristo”. Somente em 2008, já morto, ele receberia o perdão do Vaticano.
Agora aparece Elton John, em entrevista à revista norte-americana Parade, para dizer que “Jesus Cristo era misericordioso, um homem gay superinteligente que entendeu os problemas da humanidade. Na cruz, ele perdoou as pessoas que o crucificaram”.
Por que Jesus é um tema tão recorrente entre os artistas? Porque encerra o profundo pavor coletivo ao avanço do pensamento fundamentalista, intolerante, em sociedades que parecem caminhar rumo a um choque inevitável. Elton John, gay declarado, na mesma entrevista lembra que “ser mulher homossexual no Oriente Médio é a morte” – como de fato é.
Nos Estados Unidos, pátria da democracia, das liberdades, do cinema, do jazz e da mais alta tecnologia, a maioria da população ainda nega a teoria evolucionista de Darwin (1809-1882), vetada inclusive em muitas escolas de grande reputação. Contudo, em nada diferente do universo fundamentalista islâmico, igualmente fiel à ideia de um Éden primevo, mas cujos avanços científicos atuais – bélicos, diga-se de passagem – podem em breve fornecer aos aiatolás poderes de destruição nuclear semelhantes aos de seus inimigos ocidentais. Brincando de deuses…
Engana-se quem pensa que a leitura fundamentalista da Bíblia é coisa do passado. Ela avança, e até com maior força, nos templos e igrejas que proliferam em antigas salas de cinema. O radicalismo islâmico, por sua vez, resulta das tensões com o mundo judaico, e vice-versa. Bíblia, Corão e Torá só se entendem na predestinação divina do Homem e na defesa da procriação, daí sua aversão ao evolucionismo e a todas as formas de homossexualidade e controle da natalidade.
Paradoxalmente, foi em fontes pagãs que a filosofia e arte cristãs se banharam, afirmando o pensamento ocidental.
Ainda que não sobrevivamos à intolerância e que tudo sucumba, provavelmente o que restará aos pesquisadores do futuro serão fragmentos de uma arte pagã retratada em nossa arquitetura, por exemplo. A essa altura, seria mais interessante aos artistas afirmarem que Cristo pulou das páginas do Evangelho e surfa atualmente nas ondas da Internet.