O cirurgão Haeckel Moraes, responsável pela lipoaspiração da jornalista Lanusse Martins, deve ser indiciado por homicídio doloso, ante as constatações de erro médico no procedimento cirúrgico. A sociedade ainda está em choque com o que aconteceu. Lipoaspiração é última moda entre as mulheres.
A carreira do médico, seja qual for o desfecho, está indelevelmente marcada. Delegado de polícia e promotor público deram entrevistas, inflamando o clamor popular. Há um clima vampiresco no ar. Sede de vingança.
Procedimento cirúrgico, o mais rotineiro que for, é complexo. O piloto de um Boeing lotado pode arrematar o avião se julgar que entrou em alta velocidade na pista e não haverá tempo para frear. Com margem para cálculos, salvam-se centenas de vidas. Numa mesa de cirurgia, um segundo de hesitação pode custar a vida do paciente anestesiado.
A mídia embarca na corrente positivista que alcança muitos setores do Direito, cuja idéia de legalismo atribui à lei função meramente reguladora da vida social. Como se para ser juiz bastasse saber ler. Ou ignorasse que a lei é insuficiente para interpretar a complexidade da vida real. Exemplo dramático se reflete na manchete do caderno de Cidades do Correio Braziliense, no último final de semana, sobre uma criança de três anos que morreu asfixiada enquanto brincava numa rede de dormir na varanda de casa. Ignorando a tragédia familiar diante do acidente doméstico, o jornal fez questão de assinalar no subtítulo que “a mãe pode responder por homicídio culposo”. Como se não bastasse.
A tragédia envolvendo a jornalista abre campo para inúmeras reflexões. Impossível deixar de citar a indústria da vaidade e dos padrões estéticos de beleza que submetem mulheres (e homens também) a tratamentos com altíssimos riscos. Padrões, ressalte-se, impostos sob o total beneplácito da mídia, ela própria uma contumaz usuária. E, portanto, cúmplice.




