No meio de tantas bobagens que vemos na TV – do noticiário burro até o Big Brother – uma notícia boa: o lançamento, em DVD, da minissérie “Grande Sertão: Veredas”, dirigida por Walter Avancini em 1985. Naquela época ainda existia vida inteligente na TV, o que serve para calar a boca de alguns pseudocomunicadores que insistem na fórmula da televisão burra para uma população classificada, na média, como também burra.
Se em 1985 a TV levava ao ar, com sucesso, uma adaptação do denso romance de Guimarães Rosa, e hoje se contenta com novelas de baixíssimo nível e espetáculos horrorosos do tipo Big Brother e A Fazenda, talvez o problema esteja dentro dos muros das empresas de comunicação – ou na cabeça de quem as dirige.
Com a força que ainda tem a TV no Brasil, a mediocridade de suas programações vai influenciando outros setores da indústria cultural. Nada mais decepcionante, por exemplo, do que ver um pai na fila do cinema para assistir à sessão dublada de Avatar. Perturbado com a minha presença na fila do mesmo filme, mas com legenda, ele tenta justificar: “É por causa de meu filho, ainda é criança e prefere ver dublado.” Volto-me para a criança e vejo um rapazote de uns 12 anos…
A comparação é inevitável com os meus 12 anos (e de tantos outros que, com certeza, leem esse blog), vividos em cidade do interior e que, mesmo sem a tecnologia de hoje (e talvez por isso mesmo) aprendemos a ler devorando gibis e as legendas dos filmes de Tarzan, Hércules e Maciste. De olhos fechados eu sabia distinguir a voz de Johnny Weismüller do anasalado Johh Wayne, que por sua vez era diferente de Rodolph Scott. Vi e li todo o filme “Os Dez Mandamentos” e colecionei álbuns de figurinhas de Charlton Heston e Yul Brynner, este último no papel do Faraó.
Voltando ao “Grande Sertão: Veredas”, este não precisa de legenda, felizmente para muita gente. Vale a pena ver porque, embora ainda longe da grandeza e brilho da obra de Guimarães Rosa, a minissérie representou um marco para a televisão e elevou o trabalho de atores como Tony Ramos, Bruna Lombardi (no papel de Diadorim) e Tarcísio Meira, talhados pela vocação e não pelo mero estrelismo.
Certa vez ouvi o poeta João Cabral de Melo Neto declarar que desde a adaptação para o teatro de “Morte e Vida Severina” jamais conseguiu ler o poema “Funeral de um Lavrador” sem ouvir os acordes que Chico Buarque compôs para ele. Admirador que sou do livro de Guimarães, não consigo ler uma frase de Riobaldo sem imaginar o rosto de Tony Ramos. O bandidão Hermógenes, na minha cabeça, terá sempre a cara deformada de Tarcísio Meira. Assim como o Joca Ramiro é a cara do já esquecido Rubens de Falco. Já Diadorim…aí é diferente. Penso na Bruna Lombardi, claro, mas em muitas outras Diadorins que povoam o meu imaginário.




